Ver Para Ser: a visão muito além dos olhos

Jéssica Marques

“Somos seres visuais”. A frase faz parecer superficial, mas essas três palavras conseguem traduzir o sentido da visão. O olhar é responsável por 75% de todas as impressões do que está ao nosso redor. Tais impressões constroem quem e o que somos.

E quando nos deparamos com situações em que precisamos nos reinventar? Precisamos transformar a visão sobre a vida? Cris Guerra é escritora, autora do www.crisguerra.com.br, publicitária e mãe, e teve que mudar seu olhar sobre a própria vida várias vezes. Principalmente, seu olhar para o futuro.

Em uma dessas metamorfoses, ela se viu diante de um novo mundo. O mundo da Neurovisão. Cris passou a contar histórias de pessoas que tiveram suas vidas transformadas pela visão. Foi assim que ela despertou o “olhar curioso” do Visão Para O Futuro.

Nesse bate-papo desvendamos a conexão do Mundo Irlen com a nossa primeira entrevistada da coluna de histórias do VPOF, Cris Guerra. Confira:

VPOF: Você escreve muito sobre o olhar. O que a visão significa para você?

CG: A visão é o nosso primeiro contato com o mundo. É como o tocamos, já que não podemos tocá-lo no sentido tátil a todo momento. Ao mesmo tempo, o olhar é o que permite que o mundo nos toque. É claro que uma pessoa desprovida do sentido da visão, ou com o seu sentido prejudicado, terá que estabelecer outra forma de contato com o mundo, compensando através dos outros sentidos. Mas a visão é minha janela de viver.

VPOF: Como você conheceu as histórias dos pacientes da equipe de Neurovisão do HOlhos?

CG: Uma amiga teve um filho diagnosticado com a Síndrome de Irlen. Quando ela me contou a história, fiquei fascinada com o assunto. Achei revelador! Fiquei interessada e quis aprofundar o conhecimento sobre isso. Então conheci a Dra. Márcia e o Dr. Ricardo Guimarães. São figuras admiráveis, fora da curva, cujo envolvimento com o assunto transcende a medicina. Eles sabem ver as pessoas por trás dos diagnósticos e o significado do tratamento na vida delas.

Cris Guerra e Dra. Márcia Guimarães: o encontro de olhares que se importam (Foto: Blog Cris Guerra)

VPOF: O que te motivou a escrever sobre pessoas que tiveram a vida transformada pela visão?

CG: Eu queria contar para o mundo, tornar visível a história dessas pessoas e a existência da Síndrome. Não como um alerta sensacionalista ou como uma notícia ruim, e sim como uma boa notícia. É importante demais que a SI seja devidamente reconhecida e divulgada. Porque seu diagnóstico e tratamento de fato muda vidas. Tem muita gente sofrendo com questões que poderiam ser resolvidas ou atenuadas pelo diagnóstico. É uma tomada de consciência que pode mudar a vida de muitas e muitas pessoas, mudar o desfecho de muitas histórias.

A equipe do Ver para Ser compartilhou um curta inédito sobre a história da família Almada. Uma das tantas histórias, conectadas através do olhar, de pessoas dispostas a melhorar a vida do próximo. Confira o curta – digno de filme – que transmite a grandiosidade dessa “visão para o futuro”:

VPOF: Fale sobre seu papel como “embaixadora” do Ver para Ser.

CG: É uma honra e uma alegria, mas também um grande desafio. Não sou médica, e isso gera questionamentos na própria comunidade médica, afinal para muitos a Síndrome de Irlen ainda é invisível. Sei o quanto os fatos novos, as novas descobertas na medicina, podem ser difíceis de aceitar. De certa forma, isso é bom, pois, quando falamos de saúde, da vida das pessoas, todo cuidado e cautela são imprescindíveis. Mas também acontece a resistência se novos tratamentos, se mais eficazes, substituam práticas já consagradas. Então muita gente pode considerar que eu estou me metendo onde não deveria. Mas é fundamental. Estou exercendo meu papel legítimo de comunicadora. Afinal, se a Síndrome já fosse plenamente reconhecida pela comunidade médica, meu esforço de divulgação não seria necessário. Eu me apaixonei pela causa e considero que testemunhar tantas histórias cujos desfechos foram alterados pelo diagnóstico da SI me coloca na missão de relatar essas histórias, a fim de abrir os olhos de outras famílias para a importância do assunto.

 

O projeto Ver Para Ser é repleto de superação e luta.

Conheça mães, filhos e suas histórias relacionadas à Síndrome de Irlen.

 

VPOF: Você disse que a Neurovisão te proporcionou um novo olhar sobre o olhar. O que isso quer dizer?

CG: Acho que a Neurovisão é um estudo dinâmico do sentido da visão, focado no todo e não apenas nos olhos. A gente esquece que o ver e o enxergar não são funções apenas dos olhos, mas do trabalho conjunto dos olhos com o cérebro. O Dr. Ricardo (Guimarães) – Oftalmologista, Presidente da Fundação HOlhos e Diretor Técnico do Hospital de Olhos – disse uma vez que os olhos poderiam ser considerados a “única parte visível (externa) do cérebro”. É uma forma muito nova de olhar para o sentido da visão. Os exames oftalmológicos tradicionais limitam muito a abordagem sobre a visão. Ao fazer os testes de rastreio para a Síndrome de Irlen, como eu fiz – são horas de exames em vários níveis de detalhamento –, você toma consciência do quanto a visão é muito mais complexa e rica.

VPOF: E qual a sua “visão para o futuro”?

CG: A minha visão para o futuro é o que me motivou a escrever estas histórias. Acreditar que o mundo com maior conhecimento e aceitação da Síndrome de Irlen será mais inclusivo, mais empático e principalmente mais saudável, pois as crianças (e até alguns adultos) terão chance de diagnosticar aquilo que faz o seu desenvolvimento e a sua relação com o mundo, principalmente na fase escolar,  seja diferente e muito mais árdua que a maioria das pessoas. Os olhos são um dos principais órgãos do corpo humano e além da visão, eles também são capazes de revelar coisas incríveis sobre o que se passa dentro do nosso cérebro.

Mas, afinal, o que é Síndrome de Irlen?

A Síndrome de Irlen (SI) é uma condição que dificulta o uso pleno da visão e é caracterizada por um conjunto de sintomas que incluem a fotofobia, ou seja, grande desconforto em lidar com a luz associado a uma dificuldade própria de se adaptar ao ambiente claro e escuro. Outros sintomas muito frequentes são: dores de cabeça, enxaquecas, distorções visuais, além de alterações na orientação viso-espacial (dificuldade com a percepção de profundidade e a limitação da habilidade de avaliação tridimensional das coisas).

As queixas típicas de letras se mexendo durante a leitura são distorções presentes nos diagnósticos para Síndrome de Irlen.

Na maioria dos casos, a falta de conhecimento sobre a SI dificulta o diagnóstico e, com isso, a vida da pessoa portadora da disfunção, especialmente nos períodos de maior esforço, como atividades escolares, acadêmicas e profissionais que envolvem leitura por tempo prolongado.

A Fundação H.Olhos e o Laboratório de Pesquisa Aplicada à Neurovisão (LAPAN) desenvolvem um trabalho de capacitação voltado para profissionais da saúde e educação. O curso DARV – Distúrbios de Aprendizagem Relacionados à Visão, tem duração de quatro dias e, em sua 31ª edição, já formou cerca de 6 mil profissionais de todos os estados do Brasil.

 

Os conhecimentos compartilhados no curso DARV permitem identificar, a partir da aplicação do Método Irlen, os distúrbios visuais causados pelo Estresse Visual.

A próxima edição do curso acontece entre os dias 23 e 26 de maio.

 

Cris Guerra realizou uma entrevista esclarecedora sobre a Neurovisão com a Diretora Clínica e Chefe do Departamento de Neurovisão do Hospital de Olhos e palestrante do curso DARV, Dra. Márcia Guimarães. Assista aqui.