A maneira como enxergamos o mundo pode influenciar nosso comportamento

Luana Rodrigues

Ao longo do dia experimentamos diversas sensações. Sentimos a textura da toalha e o cheiro do café, escutamos música, degustamos um pão de queijo e enxergamos o céu azul. Todas essas sensações chegam ao nosso cérebro e refletem no nosso comportamento.

Os cinco sentidos –  tato, paladar, olfato, audição e visão – são os responsáveis por captar as informações do ambiente em que estamos e enviá-las para o cérebro, onde elas serão processadas.

No cérebro tudo é associado, é ele quem organiza e armazena as nossas experiências. O resultado é a construção de uma percepção do mundo, a maneira que cada um enxerga.

Tal percepção forma um conjunto de características individuais e constantes. Sabe quando alguém diz que você tem uma personalidade muito forte ou que você é muito extrovertido? Isso é o que seu cérebro construiu.

 

Desenvolvendo a sua identidade

Você se lembra de quando era criança, na época em que você passava o dia brincando e ralava os joelhos? É durante essa fase que mais adquirimos novas informações e as transformamos em experiências.

É dentro de casa que adquirimos as primeiras informações e começamos a repeti-las. Um estudo realizado com crianças até a 5ª série, do livro “Freaknomics”, apontou que tirar boas notas não está relacionado ao que os pais fazem – como ler para os filhos antes de dormir – mas, ao que eles são – se eles têm o hábito de ler, têm livros em casa etc. É o nosso cérebro associando informações.

Confira a matéria exibida no Fantástico sobre alguns dos segredos da aprendizagem:

Até mesmo os bebês, captam informações e depois as armazenam no cérebro. Por exemplo, um bebê é capaz de entender que é possível mover objetos com as mãos, porque as pessoas ao seu redor fazem isso. A sua experiência visual faz com que o cérebro associe e construa uma ação.

 

Conhecendo o mundo

Aquilo que experimentamos ao longo da nossa vida, contribui com a formação de quem somos e a nossa visão de mundo. Ou seja, quanto mais coisas você conhece, mais informações o seu cérebro terá para associar e fortalecer o seu ponto de vista.  

Para entender melhor, visualize uma árvore. Você provavelmente está pensando no seu tronco e em sua copa. O tronco em tons mais escuros, a copa verde com muitas folhas. Você conseguiu entender que isso é uma árvore pelas características que o seu cérebro já associou ao ler a palavra árvore.

É muito mais fácil construir uma noção de mundo e daquilo que está ao nosso redor quando já temos referências. Se você não tem o conhecimento sobre determinado assunto, nesse caso, se você não conhece uma árvore, terá dificuldade para identificá-la.

 

Provavelmente você consegue enxergar o animal que aparece no centro da imagem e depois, você consegue associar toda a composição da foto, que é formada por pessoas. Isso acontece porque o seu cérebro está associando uma informação que você já tem armazenada. A campanha foi criada para a ONG indiana World For All Animal Care And Adoptions, realizada pelo fotógrafo Amol Jadhav e o diretor de arte Pranav Bhide

E o que acontece quando não captamos certas referências? E se elas não estão sendo associadas de maneira correta? É o caso de Renata Bloomfield, que, aos 32 anos, não sabia o que era enxergar o mundo em 3D.

Renata tinha dificuldades para subir e descer escadas e não percebia a diferença de planos entre uma tela de computador e uma caneca. Desafios que pareciam não ter explicação.

Mas, quando ela experimentou a sensação de enxergar os detalhes pela primeira vez, sentiu como se um novo mundo se abrisse diante de seus olhos. Ela viu com clareza os pelos de um boneco de pelúcia e enxergou os degraus da escada, um a um. Renata percebeu que suas dificuldades tinham um porquê: ela tinha uma visão de mundo diferente da maioria das pessoas.

Diagnosticada com Síndrome de Irlen (SI), também caracterizada como Estresse Visual, Renata entendeu que havia uma falha em seu processamento visual e, por isso, seu cérebro não conseguia compreender com precisão as situações ao seu redor.

A pediatra e neurologista infantil, Maria Amim, explica que essa falha atua diretamente na construção da percepção de mundo. “O nosso cérebro trabalha com associações. Nós associamos, processamos e depois armazenamos. Se pensarmos que a SI é uma alteração na entrada sensorial da informação, compreendemos que o conhecimento de mundo daquela pessoa será diferente”.

Quando o paciente é diagnosticado, a sua visão de mundo é “filtrada”. Imagine novamente aquela árvore. Agora imagine que durante toda a sua vida você não enxergou uma árvore como ela realmente é e que por meio dos filtros espectrais – lentes para óculos ou lâminas (overlays) – que cortam um comprimento de onda específico, que, por algum motivo, esteja causando ruídos no sistema visual, você enfim pode ver a árvore. Você terá uma nova visão de mundo. Uma nova visão de árvore. Foi isso que aconteceu com Renata.

Quando estamos adquirindo novas informações, precisamos da integridade dos cinco sistemas, para uma boa construção de mundo.

Conhecimentos compartilhados para identificar a Síndrome de Irlen

A Fundação H.Olhos, em Belo Horizonte, liderada pela Profa. Dra. Márcia Guimarães e pelo Prof. Dr. Ricardo Guimarães, desenvolve um trabalho de capacitação sobre Distúrbios de Aprendizagem em parceria com o Laboratório de Pesquisa Aplicada à Neurovisão (LAPAN).

O curso DARV – Distúrbios de Aprendizagem Relacionados à Visão, tem duração de quatro dias e é voltado para profissionais da saúde e educação. Sua 34ª edição acontece entre os dias 24 e 26 de outubro de 2019, cerca de 6 mil profissionais de diversos estados do Brasil já foram capacitados pelo curso.

Os conhecimentos compartilhados no curso DARV – por profissionais de várias áreas do conhecimento, como a Dra. Maria Amim – permitem identificar, a partir da aplicação do Método Irlen, os distúrbios visuais causados pelo Estresse Visual.

 

Influências genéticas e o meio em que vivemos

Além daquilo que captamos e associamos, os nossos traços genéticos e o ambiente em que vivemos também influenciam na construção do nosso comportamento.

 

Durante a infância, estamos atentos ao que os nossos pais fazem. O nosso cérebro associa as informações que estamos visualizando e as transformam em uma ação

Uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria de Londres, apontou a existência de uma forte interação entre herança genética e o ambiente no desenvolvimento do comportamento e personalidade de uma pessoa.

Os resultados mostram que homens que sofreram maus-tratos durante a infância e desenvolviam pouca atividade em determinadas enzimas – relacionadas aos traços de personalidade e humor – apresentaram uma probabilidade 10 vezes maior que os demais de cometerem crimes violentos.

A nossa percepção de mundo é a chave para o nosso comportamento. O nosso cérebro e o ambiente em que estamos funcionam de maneira interativa e intensa, o que nos tornam únicos e contribuem com a forma como vemos o mundo.

Saiba também como os estímulos do ambiente podem influenciar a realização de algumas atividades, como por exemplo, a leitura.