Viagens espaciais podem desbravar os mistérios do corpo humano. Você sabe por quê?

Jéssica Marques

O olho é a parte do cérebro pelo qual investigamos a vida e vivenciamos o mundo. A curiosidade humana nos leva a conhecer os limites da ciência e a desbravar os mistérios do universo. Podemos ver a curva da Terra quando estamos fora de órbita, avançar nas buscas de vida em outros planetas e também entender melhor como nosso corpo funciona em situações extremas. Mas e como ele reage em viagens espaciais?

Aproximadamente 60% dos astronautas que fizeram longas viagens espaciais apresentaram manifestações oculares ao retornarem à Terra. Muitos deles voltaram com problemas como edema do disco óptico, dobras na retina, aumento do grau de visão e glaucoma.

Para saber mais sobre esse assunto, assista a esta entrevista com o Dr. Rubens Grochowski, médico especialista em glaucoma do Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães, em Belo Horizonte.

 

 

O Dr. Rubens Grochowski
é médico especialista
em Glaucoma do
Hospital de Olhos

Dr. Ricardo Guimarães
.Assista esta entrevista
com ele sobre o assunto:

Mas o que acontece com o organismo dos astronautas em situações complexas como em viagens espaciais?

 

Depois de missões espaciais superiores a 90 dias, os pesquisadores se concentraram exatamente no que a visão poderia demonstrar. Foi observado que os astronautas, ao retornarem à terra, traziam algumas mudanças oculares significativas.

 

 

Dr. Rubens Grochowski – Foto: Valnice Gonçalves

 

E quais seriam essas alterações? Alguns astronautas voltavam de suas missões hipermetropes, com o olho mais achatado, dobrado e com inchaço no nervo óptico. Isso provocou curiosidade e grande preocupação junto aos pesquisadores da NASA. Por que isso acontecia? Afinal, milhões de dólares são investidos em viagens espaciais, e eles não poderiam correr o risco de que os astronautas perdessem a visão em plena missão. E foi esta a origem do conceito, decorrente dos estudos realizados em pessoas que viajaram ao espaço, chamado de VIIP Syndrome que significa, em inglês, Visual Impairment due to Intracranial Pressure (Deficiência Visual devido à Pressão Intracraniana). Ou seja, no espaço o corpo humano está sob a ação de uma microgravidade e devido a essa microgravidade o líquido cefalorraquidiano (que é um líquido que fica no cérebro) faça uma pressão relativamente aumentada, empurrando o nervo óptico para frente. Neste caso, a pessoa vai ficar com um edema de disco. A partir desta descoberta, surgiu a correlação com o glaucoma. Por quê? Porque os pesquisadores começaram a relacionar a ideia de que se a pressão para frente causa um edema do disco, uma pressão para trás pode causar um aumento da escavação do nervo óptico. E por meio dos estudos da NASA originou-se a ideia que questiona o entendimento clássico para a origem do glaucoma, associado apenas ao aumento da pressão intraocular. As viagens espaciais apontam que a origem do problema pode estar relacionada com o desbalanço entre a pressão intraocular e a pressão intracraniana.

E foi assim, explorando o universo, que astronautas e cientistas começaram a desbravar segredos como o do glaucoma, degeneração silenciosa e sorrateira, desconhecida pela metade dos pacientes diagnosticados (quase 50% das pessoas afetadas não sabem que estão com o problema).

Caracterizado pela perda gradual e lenta do campo visual, o glaucoma é a segunda maior causa de cegueira irreversível, perdendo apenas para a catarata.