Porque profissionais que lidam com crianças precisam saber mais sobre visão

Jéssica Marques

“Não consigo enxergar nada no quadro!” e “Minha cabeça está doendo de tanto ler!” são queixas frequentemente ouvidas por professores e profissionais da educação. Ir mal na escola ou ter dificuldades de aprendizado não significa que uma criança não goste de estudar. A falta de atenção ou incompreensão da informação pode estar relacionada ao processamento visual.

As dificuldades de aprendizado acentuadas normalmente estão acompanhadas da resposta sim para perguntas como: sente muitas dores de cabeça após esforços visuais prolongados? Sente enjoo quando viaja de carro? Tem muita sensibilidade à luz?

Para entendermos esse processamento, precisamos extrapolar o exame do olho, do órgão, e passar a entender o sistema visual. Quando vemos a luz sendo refletida na parede, na mesa, no papel, no tela do computador ou do telefone este espectro de luz visível entra diretamente pelos nossos olhos e atravessa toda a estrutura do olho até chegar à retina.

 

Entendendo o processamento visual

Na retina há células responsáveis por transformar o estímulo físico recebido em estímulo nervoso: as células fotorreceptoras. Uma vez estimulado, o nervo óptico envia para o cérebro a informação captada pelos olhos. Então, o que enxergamos é definido pelo cérebro. A imagem é uma construção cerebral. Você sabe a cor do lápis porque o seu cérebro informou.

O processo de leitura e aprendizado depende de diferentes fatores, como a luz, por exemplo. Os distúrbios na visão impactam diretamente na aprendizagem de crianças, principalmente em fase escolar.

As queixas dessas crianças costumam persistir, e elas acabam sendo levadas a profissionais da saúde: oftalmologia, psicologia, neurologia são algumas das especialidades na lista desses pacientes. Na maioria das vezes, essas crianças são diagnosticadas com Dislexia ou Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e começam tratamentos medicamentosos.  

Mas, atenção. Se esse é o caso de seu aluno ou paciente, ele pode, na verdade, fazer parte de um grupo da população que tem um distúrbio de aprendizagem relacionado à visão: Síndrome de Irlen (SI).

 

A Síndrome de Irlen

A SI, ou Estresse Visual, é uma condição que dificulta o uso pleno da visão e é caracterizada por um conjunto de sintomas que incluem a fotofobia, ou seja, grande desconforto em lidar com a luz associado a uma dificuldade própria de se adaptar ao ambiente claro e escuro.

Outros sintomas muito frequentes são: dores de cabeça, enxaquecas, além de alterações na orientação visuoespacial (dificuldade com a percepção de profundidade e a limitação da habilidade de avaliação tridimensional). Dar atenção devida às queixas e encontrar o diagnóstico correto para solução dos distúrbios visuais, pode evitar grandes prejuízos ao desenvolvimento das crianças.

“É importante que os profissionais que lidam com crianças e adolescentes tenham entendimento sobre a Síndrome de Irlen. São fatores que estão relacionados com a sociabilidade, crescimento pessoal e profissional dessas pessoas.” reforça Marina Nogueira, Supervisora da Fundação HOlhos.

Marina Nogueira é supervisora  
do Hospital de Olhos
.Assista esta entrevista com ela sobre a Síndrome de Írlen:

A falta de conhecimento dificulta o diagnóstico e, com isso, a vida da pessoa portadora da disfunção. A Fundação H.Olhos e o Laboratório de Pesquisa Aplicada à Neurovisão (LAPAN) desenvolvem um trabalho de capacitação voltado para profissionais da saúde e educação. O curso DARV – Distúrbios de Aprendizagem Relacionados à Visão, tem duração de quatro dias e, em sua 32ª edição, já formou cerca de 6 mil profissionais de todos os estados do Brasil.

Marina ainda explica que, quanto mais cedo a triagem, avaliação e diagnóstico do Estresse Visual, maiores serão as chances de sucesso no tratamento que, na maior parte dos casos pode ser feito com a prescrição de lâminas (overlays) ou filtros espectrais. O diagnóstico precoce previne déficits de aprendizagem – e outros prejuízos emocionais e sociais – que poderiam comprometer o futuro de uma criança. “Esse é objetivo da Fundação hoje, conseguir levar o conhecimento tanto para profissionais da área da saúde e da educação quanto para pais e para a sociedade de forma geral sobre a Neurovisão e sobre os impactos dessas dificuldades no dia a dia das pessoas”, acrescenta.

As  lâminas espectrais (overlays) bloqueiam determinados comprimentos de ondas das faixas espectrais que compõem “a luz” que entra pelos nossos olhos. E, a partir deste bloqueio, produzem grande melhora ou correção plena das distorções visuais em crianças com dificuldade de leitura e aprendizado.

Os conhecimentos compartilhados no curso DARV permitem identificar, a partir da aplicação do Método Irlen, os distúrbios visuais causados pelo Estresse Visual. A 32ª edição do curso acontece entre os dias 25 e 27 de outubro.