O mundo dos médicos invisíveis

Redação

A bela Fernanda del Carpio costumava consultar médicos invisíveis. É difícil saber, com certeza, quem eram eles, mas o que está claro é que ela, certamente, sentiu-se ajudada e curada pelos conselhos dos doutores imaginados. Ela não podia ver ou tocá-los. Talvez fossem espíritos, sombras ou apenas frutos de sua imaginação.

Quem leu “100 anos de solidão” do Prêmio Nobel de Literatura de 1982,  Gabriel Garcia Marques, um dos escritores mais conhecidos por sua capacidade de criar metáforas, realismo mágico e de fazer analogias simbólicas,  conheceu a história do povoado fictício de Macondo e a ascensão e queda de seus fundadores, a família Buendía. Os leitores de Garcia Marques certamente irão lembrar da bela Fernanda del Carpio e dos seus médicos invisíveis.

Hoje vamos falar de como são criadas as tais pessoas invisíveis. Elas podem, sim, surgir dos autores do realismo fantástico, da imaginação fértil das crianças ou, até mesmo, das mentes transtornadas. No entanto, pessoas reais, quando pacientes, também podem se tornar invisíveis se sua condição de saúde não é reconhecida ou identificada.  A história da medicina está repleta de casos que só receberam cuidados apropriados quando a condição clínica do paciente foi compreendida à luz de novos conhecimentos da ciência médica. 

Assim como neste artigo, o povoado fictício de Macondo trata da “in­suficiência dos recursos convencionais para tornar nossa vida acreditável”.

Este artigo é a continuação do tema “a história das crianças invisíveis”. Crianças que precisam fazer um grande esforço, a fim de chamar atenção de especialistas da saúde e educadores para serem vistas e compreendidas. 

O VPoF conheceu as “crianças invisíveis” em um encontro chamado Picnic Família Irlen. E o que mais chamou a nossa atenção foi a frase “ eu não sou invisível” estampada em balões e camisetas.

Para entender melhor o significado da expressão, a redação do VPoF conversou com médico oftalmologista, professor e pesquisador da Neurovisão (neurociências da visão) Dr. Ricardo Guimarães. Saiba mais nesta entrevista.

Dr. Ricardo Guimarães é médico oftalmologista, presidente do HOlhos e da mantenedora da Faculdade de Medicina Faseh.

VPoF: Com tantos avanços tecnológicos na medicina, ainda existem pacientes invisíveis?

RG: Existem e sempre vão existir. A medicina evolui e, com a evolução, temos a capacidade de diagnosticar distúrbios e doenças cada vez mais complexos. O ambiente muda e, com a mudança, surgem novas condições que exigem dos médicos um esforço de atualização constante, incessante.

Sempre fui muito ligado em inovação e nos avanços na área da saúde. Perco muito o sono tentando imaginar cenários da medicina do futuro. A tecnologia, quando bem aplicada é, sem dúvida, boa para todas as pessoas e para todas as áreas do conhecimento.

Os avanços tecnológicos na medicina podem ser benéficos tanto para o trabalho do médico, quanto para a saúde do paciente.  Por outro lado, confesso temer alguns recursos de inteligência artificial pelo receio de vê-los aplicados de forma inapropriada, não em benefício do paciente. 

VPoF: O senhor poderia exemplificar como a tecnologia poderia não resultar em benefícios ao bem-estar das pessoas?

RG: Falo isso porque a tecnologia cria algoritmos, técnicas e processos que devemos seguir com disciplina. Mantendo uma visão crítica do seu uso correto, na perspectiva do resultado, e não apenas na perspectiva do protocolo de uso. Quanto mais usamos, mais nos tornamos dependentes  das diversas formas de inteligência artificial e, consequentemente, menos usamos a nossa inteligência natural que, juntamente com a empatia e emoção, a máquina ainda não assimilou e, provavelmente, vai demorar a assimilar. Falo da solidariedade, da humanidade, da nossa capacidade de reconhecer o desconhecido. aquilo que está fora do alcance dos algoritmos da inteligência artificial.

A Empatia é a qualidade mais distintiva do ser humano: sua capacidade de se colocar no lugar do outro.

VPOF: Quais seriam as consequências e os prejuízos para a saúde humana se a medicina for dominada pela indústria e tornar-se refém da inteligência artificial?

RG: Quanto mais tecnologia ou inteligência artificial usamos, menos exercitamos nosso lado humano. Consequentemente, com o passar do tempo, vamos perder as habilidades empáticas e traços de personalidade que nos fazem ser quem somos, cada um dentro de sua individualidade.  Características que nos dão a capacidade de nos colocar no lugar do outro, a maior qualidade distintiva do ser humano. Filósofos e futurólogos têm feito esta pergunta de forma incessante: será esse o futuro da medicina e dos médicos? Vamos nos transformar em robôs submissos e obedientes aos ditames da tecnologia e aos algoritmos da máquina? Seremos capazes de reconhecer os casos dos pacientes cujos diagnósticos não estão incorporados na memória do menu de opções do computador? Seremos capazes de atender com humanidade e empatia os casos de pacientes cujos diagnósticos não estão incluídos nas listas oficiais das autoproclamadas sociedades científicas?

Considerando a maneira exponencial como a tecnologia está evoluindo, principalmente quando ela se aplica à saúde, não posso deixar de imaginar claramente que corremos um grande risco de nos tornar médicos cada vez mais, “ invisíveis” aos olhos dos nossos pacientes, escondidos e escudados pela tecnologia.

VPOF: Quando o senhor fala do futuro da medicina e da formação em série dos “Médicos Invisíveis”, podemos dizer que a robotização se dará pela resistência que a medicina oferece ao novo e o apego que os médicos têm aos conhecimentos repetitivos e do passado?

RG: Grandes médicos do passado foram referenciados pela recusa de rotular seus pacientes com diagnósticos convencionais e por terem, com humildade e dedicação, se aprofundado nos exames e diagnósticos de condições até então desconhecidos. É bem verdade que não havia ainda contra eles a desvantagem do deslumbre da tecnologia como acontece hoje.  Acima de tudo, foram médicos que souberam ouvir seus pacientes. E foi ouvindo os pacientes, que fizeram avançar a medicina em direção ao futuro.

Lembrando Sigmund Freud podemos ver que ele recusou os rótulos diagnósticos da época aos seus pacientes e penetrou nas profundezas da mente humana criando uma nova ciência, a Psiquiatria. O neurologista Oliver Sacks, desvendou centenas de casos clínicos antes também rotulados de forma tradicional e nos deixou grandes legados, em seus vários livros, tal como Alucinações, Vendo Vozes, Enxaqueca e o inesquecível “O Homem Que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu”. O livro, lançado em 1985, como a maioria dos outros títulos do autor, descreve casos de alguns pacientes cujos diagnósticos de doenças orgânicas foram abordados de forma correta e convertidos em disfunções. Com isso, possibilitaram uma vida saudável aos seus portadores.  A natureza fluida, e frequentemente bizarra da maioria dos transtornos descrito por Sacks, combinada com a natural relutância dos pacientes em admitir distorções e alucinações visuais ou de vozes (para não serem considerados doentes mentais), valoriza muito seu esforço na descrição dos casos relatados em seus livros.

Temos ainda o caso excepcional do filósofo e naturalista Charles Bonnet, no século 18, que evitou a internação de seu avô em um hospício com diagnóstico de alucinação esquizofrênica. Mesmo não sendo médico, Bonnet recusou o diagnóstico de doença mental (e recomendações de internação hospitalar de seu avô) e mostrou que as alucinações não representavam um quadro de doença mental. Bonnet conseguiu demonstrar que ele sofria, na verdade, de uma privação sensorial resultante de um problema visual. De fato, as alucinações do avô eram consequência de uma  degeneração macular. 

Bonnet não só salvou o avô de uma internação no hospício, mas explicou uma correlação que, até hoje, beneficia a milhares de pacientes que, sem este conhecimento, seriam também diagnosticados como doentes mentais. E como tal, seriam igualmente candidatos ao uso de medicação ou internação em hospital psiquiátrico. Sua contribuição somente viria a ser reconhecida no século 20, duzentos anos depois, quando foi proposto que a condição levasse seu nome.

Impressiona a frequência com que parentes e cuidadores observam e relatam como pessoas idosas relatam alucinações visuais, ou outras distorções de percepção visual, mas sem turvação de consciência. Tal condição nos obriga a pensar em Síndrome de Charles Bonnet muito mais que em um quadro demencial. Um, e não outro diagnóstico, nos fazem aumentar o tratamento digno e correto, no lugar do descrédito habitual associado aos casos de distúrbios mentais, onde foi perdida a noção de realidade.

Ressalto que, para falar daqueles que romperam com o passado para vislumbrarem o futuro, falei de médicos, mas também de um “não médico” que contribuiu para novas descobertas e evolução da ciência médica por se recusar, na mesma proporção, ao uso de rótulos tradicionais.

VPOF: Por que pessoas com dificuldades visuais têm tantas dificuldades em serem vistas pelos médicos especialistas em visão, ao ponto de serem diagnosticados com transtornos mentais e neurológicos, como seria o caso do avô do filósofo e naturalista Charles Bonnet?

RG: Inicialmente porque a oftalmologia usa um conceito de visão baseado no teste de Snellen, muito útil na medida da acuidade visual que é uma medida de visão estática,  para identificar erros de refração. O mesmo teste não se aplica para identificar os distúrbios de processamento visual, tais como distorções ou alucinações. Mesmo porque, até hoje, existe uma grande discussão a respeito dos mecanismos responsáveis pelas  alucinações dentro da psiquiatria e entre os cientistas da Neurovisão.

Seriam as alucinações uma manifestação de distúrbio mental ou visual? A literatura científica, escrita principalmente por médicos psiquiatras, mostra uma corrente crescente que acredita em um fator visual evolvido, se não na gênese do distúrbio, na sua aceleração e progressão. Estudos mostram que são raros os casos de pessoas esquizofrênicas com cegueira congênita.

E grande parte dos doentes mentais apresentam elevada incidência de disfunção em um dos componentes do sistema visual, a via magnocelular. Esta via é responsável pela nossa acuidade ou resolução temporal, necessária a visão dinâmica, de movimentos.

Nesta linha de pensamento, cuidados preventivos de problemas oculares, e visuais, poderiam evitar ou retardar a evolução acelerada do distúrbio mental. Tenho estudado muito este assunto, estimulado pela descrição de Charles Bonnet que se tornou um paradigma da existência das alucinações visuais nos indivíduos saudáveis.  Me impressiono com a correlação de distúrbios visuais e distúrbios mentais, especialmente entre os casos de esquizofrenia e do espectro autista onde, frequentemente, são reportados na literatura médica,  a fotofobia e a enxaqueca. São paradoxos, quase como uma antítese.

VPOF: Na sua visão, qual seria a melhor definição para o “paciente invisível” e o “médico invisível”?

RG: Podemos assim dizer que pacientes e médicos podem se tornar seres invisíveis. O “médico invisível” seria aquele que, não incorporando a empatia, a compaixão e o dever profissional e ético de curar às vezes, aliviar com frequência, consolar sempre, torna-se invisível como médico para o paciente. De modo geral ele está limitado pela tecnologia, sendo incapaz de demonstrar determinada patologia, preso aos protocolos ou aos conhecimentos que não lhe permitem reconhecer as queixas para realizar o exame clínico adequado para o seu paciente. Assim o paciente não consegue ver um médico na pessoa que o atende, porque não consegue manter uma relação de empatia e receber a ajuda que espera. Do outro lado está o “paciente invisível”.  Aquele que não é visto, identificado, diagnosticado pelo médico, porque no seu “menu de diagnósticos” aquela condição relatada pelo paciente não existe. 

O “médico invisível” seria aquele que, não incorporando a empatia, a compaixão e o dever profissional e ético de curar às vezes, aliviar com frequência, consolar sempre, torna-se invisível como médico para o paciente, conclui Dr. Ricardo Guimarães.

Para os dois lados, nos resta o exemplo de biografias de muitos como Freud e Sacks que honraram o juramento hipocrático.  Do filósofo Charles Bonnet, que soube “fora da caixa” buscar o diagnóstico correto para aqueles que necessitavam de cuidados. Por eles muitos pacientes que permaneceriam invisíveis aos olhos de outros médicos, se tornaram visíveis. Capacidade empática, disposição para ouvir e reconhecer as queixas dos seus semelhantes, mesmo quando os relatos não se encaixam no rol de doenças já conhecidas e relatadas na literatura médica, transformaria em ficção o mundo dos pacientes e médicos invisíveis.

Leia também o artigo sobre Neurovisão: a ciência de ouvir o paciente.