Excesso de sono durante o dia pode indicar glaucoma

Mariana Mendes

Ter excesso de sono – um sono de baixa qualidade (ex: roncar em excesso, despertar frequentemente) – pode acarretar problemas desde o controle de peso até dificuldades cognitivas e acabar por encurtar a vida.

Estudos recentes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ligam a má qualidade de sono ao glaucoma. Com base em uma pesquisa com os pacientes, observou-se que o excesso de sonolência diurna em pessoas com glaucoma pode estar ligado à Síndrome da Apneia/Hipopneia Obstrutiva do Sono (SAHOS). “Os dados indicam que pacientes com glaucoma têm cinco vezes mais chances de ter a sonolência diurna do que qualquer grupo controle”, comenta Douglas de Araújo Vilhena, psicólogo e coordenador do Laboratório de Pesquisa Aplicada à Neurovisão (LAPAN).

A SAHOS é uma grave doença caracterizada por episódios repetitivos de obstrução das vias aéreas superiores durante o sono, podendo provocar desoxigenação da corrente sanguínea, braquicardia e aumento da pressão arterial. Como efeito em longo prazo, a síndrome causa a desoxigenação do nervo óptico, sendo, portanto, causa e agravante do glaucoma. Dessa forma, é importante investigar em pacientes com degradação ocular se há a presença de algum distúrbio de sono e vice-versa.

A pesquisa é resultado da parceria entre a UFMG e o LAPAN, que trabalham sempre em um sentido amplo e interdisciplinar nos seus estudos para desvendar os lados desconhecidos da visão, da neurovisão e do sistema visual. Por isso, profissionais de áreas distintas estão envolvidos nos projetos do laboratório.

No caso dessa pesquisa, o responsável por levantar a questão da relação entre sonolência diurna e glaucoma foi o dentista Marco Aurélio Bonfim, como explica Douglas: “A suspeita surgiu por meio da observação do dentista Marco Aurélio, especialista em sono. Ele levantou a hipótese dessa relação, e, realmente, os resultados foram surpreendentes”.

 

Douglas Vilhena, psicólogo e coordenador do Laboratório de Pesquisa Aplicada à Neurovisão (LAPAN)

O estudo

Foram avaliados três grupos clínicos de pacientes adultos/idosos em dois centros oftalmológicos de Belo Horizonte, Minas Gerais. Vejamos:

Grupo Glaucoma de ângulo aberto:

n = 65, 26% homens, 64 ± 10 anos

Grupo Catarata, sem outros problemas oftalmológicos:

n = 35, 34% homens, 71 ± 9 anos

Grupo Controle, sem histórico de problemas oftalmológicos:

n = 58, 34% homens, 60 ± 9 anos

Pacientes com glaucoma pontuaram significativamente mais na Escala de Sonolência de Epworth,* tanto em relação aos pacientes com catarata quanto aos do grupo sem problemas oftalmológicos, com tamanho de efeito estatístico expressivo. Já pacientes com catarata não apresentaram diferença em relação ao grupo controle.

A maioria dos pacientes com glaucoma (57%) pontuou igual ou maior do que 11 pontos na Escala, isto é, critério de corte para excesso de sonolência diurna. (ver gráfico).

 

 

A Escala de Sonolência de Epworth é um método utilizado para medir os níveis de sonolência diurna, calculando a probabilidade que uma pessoa tem de cochilar durante atividades cotidianas.

 

Detecção do glaucoma

Com as novas tecnologias, é possível detectar o glaucoma em fase inicial. Para que isso aconteça, são recomendadas consultas de rotina ao oftalmologista mesmo sem apresentar qualquer sintoma. Isso é necessário porque o glaucoma é uma degradação ocular silenciosa.

“Há uma estatística que estima que 50% das pessoas que têm glaucoma não sabem que têm o problema. Na maioria das vezes, a pessoa não apresenta sintomas até que seja tarde demais e a visão esteja muito comprometida. O paciente perde a visão periférica ao longo do tempo e a sua visão fica tubular, como se ele enxergasse por meio de um telescópio”.

Explica Dr. Rubens Grochowski, médico especialista em glaucoma do Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães.

Autores do estudo: Douglas de Araújo Vilhena, Ricardo Queiroz Guimarães, Luiza Filgueiras Bicalho e Marco Aurélio Gouvêa Bomfim.